Que música escutas tão atentamente
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade
(Coração do dia)
Julho 3, 2008 às 10:08 pm
Que duo este? A voz doce de Caetano a embalar um poema lindo (são todos…) de Eugénio de Andrade…
Magia!
Abraço.
Julho 4, 2008 às 8:55 am
A minha música são as minhas palavras, as lágrimas ou os sorrisos que transbordo quando estou sózinho. Este poema de Eugénio de Andrade é mesmo mágico… faz-noz pensar nos nossos fantasmas e desperta-nos para os nossos dias solitários.
Obrigado por isso… faz-me falta olhar para dentro de mim!
Abraço